Al-Madan Online n.º 28, Tomo 2, Julho 2025

 

EDITORIAL

 

A Arqueologia é (não só, mas também) feita de memórias… de sítios, de objectos, de pessoas.

O artigo que nesta edição justifica o destaque de capa ilustra-o bem, ao evocar uma investigadora que nos deixou prematuramente, Helena Frade (1957-2014 †), ao mesmo tempo que recorda um dos sítios que marcou a sua formação académica (foi tema da dissertação de mestrado em Arqueologia que apresentou à Universidade de Coimbra, em 2002) e enriqueceu a sua carreira profissional, a villa romana de Centum Celas (Belmonte), onde escavou na década de 1990. Num terceiro plano, lembra ainda materiais arqueológicos exibidos em exposição dedicada a esse sítio, em 2008, publicando finalmente o catálogo então preparado por Helena Frade e Elisa Albuquerque, que permaneceu inédito até esta última o transformar no que hoje podemos ler nas páginas da Al-Madan Online.

Construída originalmente em meados do século I como imponente casa de família abastada, Centum Celas foi residência e espaço de apoio a trabalhos agrícolas durante mais de um milénio, com sucessivas transformações e adaptações antes do progressivo abandono e degradação na Idade Média. A parte central e mais elevada da casa resistiu à ruína e deu-lhe o aspecto de “torre” que tem desde o século XIII, pelo menos, induzindo múltiplas interpretações quanto à sua cronologia e funcionalidade. O Prof. Jorge de Alarcão descreveu muito bem esse processo em obra de 2019, A Torre de Centum Celas (Belmonte), edição ArqueoHoje Ldª apoiada pelo Município de Belmonte (ISBN 978-989-54407-0-2), em estudo enriquecido com os desenhos de arquitectura de José Luís Madeira e as fotografias de Pedro C. Carvalho. Um livro pequeno, mas fundamental para perceber um sítio arqueológico que vale a pena visitar, não se restringe ao que resta da antiga casa romana e ainda tem muito a revelar, como tantos outros no nosso país. Sítios, objectos e pessoas que merecem ser conhecidos, integrados nas nossas memórias sociais e valorizados na prática da gestão patrimonial presente e futura.

Felizmente, a reflexão teórica e a investigação aplicada ao Património cultural enfrentam esse desafio com empenho e engenho, numa perspectiva progressivamente multidisciplinar e multitemática que caracteriza a comunidade científica e está bem patente na diversidade de trabalhos que ora publicamos. Do enquadramento legislativo e epistemológico à apresentação de diferentes “terrenos” e objectos patrimoniais, com abordagens mais clássicas ou abertas às novas tecnologias e às preocupações ambientais, tudo pode ser encontrado nas próximas páginas desta revista e certamente proporcionará boas leituras. Votos de que assim seja!

 

Jorge Raposo, 15 de Julho de 2025 [in Al-Madan Online, 28 (2): 3]

 

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