Al-Madan Online n.º 29, Tomo 2, Julho 2026

 

EDITORIAL

 

Na ocasião em que se discute a criação, nos Açores, de um Museu Nacional dedicado à Arqueologia Náutica e Subaquática, por petição pública entretanto apoiada unanimemente no respectivo parlamento regional, a Al-Madan Online destaca um dos sítios emblemáticos desse rico e diversificado Património arqueológico: aquele onde naufragou o vapor Lidador, em 1878, quando assegurava a rota atlântica que unia Lisboa ao Rio de Janeiro. Incorporado em parque arqueológico subaquático desde 2005, a integridade e o estado de conservação do destroço deste navio surpreendem os muitos mergulhadores recreativos que atrai à baía de Angra do Heroísmo. Mas evocam também um dos movimentos sociais mais relevantes do século XIX açoriano e português: o da emigração legal e clandestina para o Brasil, maioritariamente oriunda dos Açores e do Minho, num contexto que a historiografia viria a classificar de “escravatura branca”, por incidir essencialmente sobre mão-de-obra desqualificada e barata destinada a substituir o comércio de escravos africanos, cuja proibição fora decretada em 1850. Esse é o contexto económico e social que o naufrágio do Lidador também permite abordar.

Outros estudos têm por tema a interacção de populações fenícias e indígenas no processo de formação de Olisipo e na estruturação do território envolvente ao longo do I milénio a.C., ou análises mais detalhadas dos selos de chumbo aplicados em mercadorias que chegaram ao Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, em Coimbra, ou ainda de um marco epigrafado que marcaria a divisão entre os terrenos ligados a este Mosteiro e a Quinta das Lágrimas, passando por um conjunto de materiais de Época Moderna recolhidos na Rua da Fé, em Lisboa, e por um olhar arqueológico sobre um instrumento culinário recolhido em estruturas habitacionais do século XVI, em Silves.

A Arqueologia de campo está representada por trabalhos em Moura, Lisboa e Leiria, enquanto outros artigos partem da realidade brasileira para uma reflexão mais abrangente sobre a teoria e a prática arqueológicas a aplicar em contextos de catástrofe, discutem como avaliar e registar situações dramáticas de isolamento sénior, e questionam os limites da Arqueologia contemporânea portuguesa.

Por fim, a Al-Madan Online volta a dar atenção à arte do guadameci / “couro dourado”, agora a propósito de uma encomenda do início do século XVII destinada a decorar o Palácio de Estaus, sede da Inquisição de Lisboa. E o alinhamento encerra com noticiário breve de intervenções arqueológicas e de eventos científicos ou de divulgação, que acompanha a agenda de eventos dos próximos meses e a recensão e destaque de edições recentes. Tudo isto antecedido pelas crónicas de Arqueologia e Património que dão brilho às páginas iniciais desta edição

Como sempre, votos de que encontre bons motivos de leitura, com prazer e saúde.

 

Jorge Raposo, 28 de Junho de 2026 [in Al-Madan Online, 29 (2): 3]

 

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